Discurso de Marcelo M. Guimarães na Cerimônia inaugural pela criação do Dia em Memória às vítimas da Inquisição

Câmara Municipal de Belo Horizonte – Cerimônia inaugural pela criação do Dia em Memória às vítimas da Inquisição – Lei Munic. 10.805/15

Hoje é um dia muito especial para mim, para o Museu da História da Inquisição, creio para a Comunidade Judaica também, para toda a sociedade Belo Horizontina, pois foi criado um dia, o 31 de março (1821, data em que foi abolida aqui no Brasil), o Dia em Memória às vítimas da Inquisição.

Estamos trazendo à memória não só uma parte da história brasileira não contada nos livros de história adotados nos currículos escolares, mas sobretudo, um alerta à sociedade sobre o perigo decorrente da intolerância e do ódio, da discriminação religiosa e racial (antissemitismo,p.ex.), que alimentam a  exclusão social. Portanto, queremos trazer à memória justamente o oposto disso, ou seja, a tolerância, o respeito ao direito de crença, a paz entre os povos, promovendo a dignidade humana e valores que justificam nossa existência. Esses pontos sim, justificam a criação de um dia tão especial como esse.

Poucos sabem que o período da Inquisição no Brasil durou mais de três séculos. Também poucos sabem que mais de 80% das vítimas da Inquisição[1] portuguesa foram por crime de judaísmo, considerado como a pior das heresias. Afinal, os judeus eram os inimigos de Cristo segundo o catolicismo romano[2] da época. Além dessa intolerância religiosa,  os motivos econômicos, comerciais, sociais e mesmo políticos alimentaram por séculos a inconcebível Inquisição que ganhava força uma vez que a Corte Portuguesa tinha os judeus como um dos principais financiadores da expansão do Reino Ibérico além mar e, por isso, o confisco de bens dos conversos e o perdão das dívidas reais tornaram-se “viáveis” a união entre o Estado e a Igreja.

A conversão forçada dos hereges ao Catolicismo foi massiva, torturante e cruel para os judeus portugueses que representavam mais de 20% da população portuguesa, principalmente, devido a entrada de mais de cem mil judeus expulsos da Espanha em 1492 que em busca da liberdade cruzaram as fronteiras portuguesas[3].

O descobrimento do Brasil pelos portugueses representou na verdade uma rota de fuga para milhares e milhares de judeus, criptos-judeus e cristãos-novos, que na ânsia de se verem livres das condenações dos processos inquisitoriais, fizeram do novo mundo sua nova pátria. Eu considero que o descobrimento do Brasil pela esquadra de Pedro Álvares Cabral, neto de judeus conversos de Belmonte,  foi uma segunda “Abertura do Mar Vermelho[4]”  para o povo do Livro, que há 1430 anos após o grande exílio decretado pelo Imperador Tito no primeiro século, viviam espalhados pelas nações, dentre elas, Portugal, que se tornou uma nação luso-judaica, se assim posso dizer, o mesmo acontecendo com o Brasil colonial.

Segundo nossas pesquisas, quase todos os capitães da esquadra de Cabral eram Cristãos-Novos.

Esta hipótese vem reforçar a tese que o Brasil não foi descoberto ao acaso como mencionado nos livros de História do Brasil. Houve uma rota definida e que foi seguida com sucesso tanto no retorno da Nau do Escrivão Pero Vaz de Caminha como o percurso restante até à Índia das outras Naus e que depois a maioria delas  conseguiu retornar a Portugal.[5]

O grande empresário, judeu converso de origem italiana, Ferdinando de la Rogna, mais tarde conhecido como Fernando de Noronha, amigo do Rei Dom Manuel, o Venturoso, deu inicio à colonização do Brasil, investindo massivamente na exploração de madeira e no plantio da cana-de-açúcar, bem como na produção de açúcar e exportação deste produto à Corte, proporcionando um grande lucro ao Reino português.

Assim, milhares e milhares de cristãos-novos, vieram para o nordeste brasileiro, se estendendo da Bahia para a região nordestina, onde mais tarde seria a província de Pernambuco, que se tornou o maior produtor do Ciclo da Cana no período do Brasil colonial.

O novo mundo lusófono, a Terra de Santa Cruz, recebia seus novos colonizadores ambicionados pela riqueza da nova terra, que na verdade, estavam distantes e bem distantes das perseguições e condenações do Santo Ofício Português. Afinal, eles queriam viver numa terra onde fossem livres para expressar sua fé num único D´us, o Criador do homem e do universo.

Entretanto, aquela liberdade de volta às práticas, ritos e costumes judaicos dos cristãos-novos, foram surpreendidos pela visita do primeiro inquisidor português, em 1591, Heitor Furtado de Mendonça, que implantava, por assim dizer, as leis inquisitoriais no Brasil, uma extensão da Inquisição portuguesa. Após a visita do Inquisidor deixou aqui uma vasta  nomeação de  clérigos  católicos que seriam responsáveis pelas delações, prisões e extradições daqueles judaizantes marranos que seriam processados, condenados e mesmo executados à pena máxima nas fogueiras inquisitoriais de Lisboa. Mais de 1036 processos[6] foram abertos após aquela visita já incluindo o nordeste, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Sem mais delongas, registramos aqui A presença judaica dos judeus português-holandeses que dominaram o nordeste brasileiro, precisamente no Estado de Pernambuco de 1640 a 1654. Nesse período milhares de judeus portugueses e seus descendentes que residiam em Amsterdam vieram colonizar o nordeste brasileiro, desenvolveram um vilarejo,  a cidade de Maurícia (atual Recife). Nesse curto período fundaram duas sinagogas a Zur Israel e a Magen Avraham. Fonte riquíssima para a história da presença judaica no Brasil. No nosso Museu pode ser encontrado a relação de nomes daqueles que assinaram a ata de fundação da Sinagoga Zur Israel. O primeiro rabino das Américas foi Itzhac Aboab da Fonseca, de origem portuguesa.[7]

Os primeiros 25 Cristãos-Novos  extraditados para Portugal, julgados e condenados por crime de Judaísmo antes de 1624 e depois de 1644 a 1748.

Gostaria aqui de registrar alguns nomes que constam na lista dos primeiros judeus e cristãos-novos brasileiros que foram extraditados, julgados, condenados e executados nas fogueiras da inquisição, como:

  • Alcoforada, Ana              1.166     Mendes, Henrique                 4.305
  • Antunes, Heitor              4.309    Miranda, Antonio Felix de    5.002
  •  Maia, Salvador da          3.216     Nunes, João                            12.464
  • Costa, Ana e Brites         11.116   Rois, Ana                                  12.142
  • Dias, Manoel Espinosa  3.508    Souza, João Pereira de       16.902
  • Duarte, Paula                   3.299    Teixeira, Bento                      5.206
  • Gonçalves, Diogo Laso  1.273    Fontes, Diogo                          3.299
  • Favella, Catarina              2.304    Franco, Lopez Matheus      3.504
  • Fernandes, Beatriz         4.580    Ulhoa, André Lopez             5.391

(Relação dos nomes com numero dos Dossiês extraídos dos Arquivos da Torre do Tombo em Lisboa)[8].

Circuito judaico dos Cristãos-Novos – Ciclo do Ouro em Minas Gerais

No início do século XVIII deu-se início ao ciclo do Ouro em Minas Gerais pelos conhecidos  “bandeirantes” portugueses, cristãos-novos, como Fernão Dias Paes Leme, Antonio Raposo Tavares, Manuel Borba Gato e outros. Segundo Dra. Neusa muitos deles praticavam ritos e costumes judaicos, tanto assim que  milhares foram inquiridos pelo Tribunal do Santo Ofício, sendo muitos extraditados, condenados e penalizados (incluindo pena máxima) em Lisboa. A presença desses colonizadores em Minas Gerais trouxe grande desenvolvimento, estabelecendo a rota de comércio mais importante do país, onde ouro e pedras preciosas chegavam ao porto do Rio de Janeiro com destino às terras lusitanas.

Por esta razão, Minas Gerais, hoje é o Estado brasileiro que apresenta a maior concentração dos descendentes de cristãos-novos  do país, sendo seguida do nordeste.

Cidades como Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Congonhas do Campo, São João Del Rei e outras tornaram patrimônio cultural da humanidade pela Unesco/Onu pela importância cultural e histórica.

Fundação da Abradjin ( Associação Brasileira dos Descendentes de Judeus e Cristãos-Novos da Inquisição)

A fim de resgatar parte dessa história, sabedor que muitos também deviam ter uma história familiar semelhante à minha, foi que fundamos a Abradjin em 19 de agosto de 2000.

Foi criado um Centro de Memória e Cultura, passamos a adquirir livros sobre o tema inquisição, artigos, documentos, etc.

Fundação do Primeiro Museu da História da Inquisição do Brasil, cadastrado e reconhecido pelo IBRAM ( Instituto Brasileiro de Museu do Ministério da Cultura)

Devido ao crescimento do acervo, documentos e mesmo objetos da época que foram adquiridos em leilões e antiquários, fundamos o primeiro Museu da História da Inquisição do Brasil em agosto de 2013.

Fizemos também réplicas dos principais equipamentos de tortura que foram usados em  milhares de brasileiros que passaram pelo Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, a saber, o Pôtro, o Polé, o Garrote e a Guilhotina de pé, a fim de chamar atenção da sociedade sobre até onde chega a crueldade e a bestialidade humana motivada pela intolerância.

Os objetivos e Propósitos do primeiro Museu da História da Inquisição em Belo Horizonte foram apresentado no video institucional no início dessa sessão.

  1. Apenas lembramos que combater a intolerância e preconceito religioso Brasil é crime, pois a Lei 9459 de 15.05.1997 considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Foi criado o dia Nacional à intolerância religiosa ( 21 de janeiro – DL 11635 de 27.12.2007)

FINALMENTE, DEIXO A PERGUNTA:

  • Há como reparar os danos causados pela intolerância religiosa?
  • A Inquisição hoje, existe?
  • O que se fazer no momento para evitar que novas inquisições apareçam?

A inquisição foi o resultado de uma fé cega que jamais proveio de Deus e dos ensinamentos judaico-cristãos. Esta fé cega, alimentada pela arrogância humana, levou a defesa de uma falsa verdade baseada em dogmas e más interpretações dos fundamentos bíblicos que foram mesclados com ideologias idólatras de seus próprios reis e impérios, numa infeliz junção da soberania da Igreja com o Estado que somadas produziram uma  cruel e desumana política de salvaguardar seus próprios interesses sob ares de uma  “salvação” nutrida pelo ódio da intolerância”

Deixo aqui meus sinceros agradecimentos a todos, em especial ao Presidente desta casa na pessoa do nosso querido vereador  Juliano Lopes, juntamente com todos seus assessores  pelo sucesso e êxito deste pleito, a Criação deste Memorável Dia que trará a lembrança a cada ano a consciência que podemos viver melhor quando respeitamos o direito de crença de todos.

Também agradeço a presença do nosso querido  Deputado João Leite, amigo de décadas e à comunidade Judaica aqui representada pelo carinho e apoio à esta causa.

A todos meus amigos e colaboradores, funcionários do Museu e da Abradjin, aos da Congregação Har Tzion, meu muito obrigado.

A todos que ainda não visitaram o Museu da Inquisição, o primeiro do Brasil, fica aqui nosso convite.

Muito obrigado e que O Eterno de Israel abençoe a todos. Boa Noite!

Belo Horizonte, 01 de abril de 2015

(proibida reprodução ou cópia sem autorização prévia do autor)

Copyright©Abradjin-Museu da História da Inquisição

(*) Fundador e Diretor-Presidente da Abradjin e do Museu da História da Inquisição



[1] NOVINSKY, Anita.  Inquisição: prisioneiros do Brasil – séculos XVI – XIX. Rio de Janeiro: Ed. Expressão e    Cultura, 2002.

[2] Colbert, Carlos Joaquim. Instrucções gerais em forma de catecismo, Lisboa- Reger Officina Typográfica   – 1770

[3] Wiznitzer,Arnol. Os judeus no Brasil colonial. São Paulo-SP-Pioneiros, 1979

[4] Guimarães, Marcelo Miranda. Há Restauração para os Descendentes de Judeus da Inquisição? -Editora   AMES-Belo Horizonte-MG- 2005

[5] Hoje existem alguns historiadores brasileiros que já alimentam a tese do descobrimento intencional.

[6] NOVINSKY, Anita.  Inquisição: prisioneiros do Brasil – séculos XVI – XIX. Rio de Janeiro: Ed. Expressão e    Cultura, 2002.

 

[7] É interessante ressaltar que mais de 80% dos judeus que assinaram a ata de registro da Sinagoga Zur Israel registraram sobrenomes tipicamente portugueses, como Nunes, Oliveira, Pinto, Cardoso, Carvalho, etc.

[8] Wiznitzer,Arnol. Os judeus no Brasil colonial. São Paulo-SP-Pioneiros, 1979

 

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