Como os massoretas hebreus ibéricos preservaram as Escrituras Sagradas

Cristiano Lúcio de Souza*

No centro da cultura dos judeus ibéricos, chamados de sefarditas, sempre esteve  a Bíblia Sagrada.

Os sefarditas conheciam a linguagem ladina, mas o hebraico era a verdadeira  língua de sua cultura.

Durante milênios, muitos povos se estabeleceram na Península Ibérica, inclusive  os hebreus. Por volta de 1200 a. C., navegadores fenícios e hebreus já comerciavam  na Ibéria. Os acadêmicos atuais reconhecem a existência do Reino de Tartesso ou Reino  de Tartessos, no sul da Península Ibérica, no primeiro milênio a.C.. Ele foi exatamente

Társis, estado rico em ouro e matérias-primas, mencionado na Bíblia.

As colonizações fenícia, grega e cartaginense foram seguidas da dominação  romana, durante a qual os refugiados judeus da diáspora e os cristãos primitivos, fiéis, mantiveram intactas suas religiões, apesar das perseguições.  

Na Alta Idade Média, os judeus foram muito perseguidos pela Igreja Católica Romana. Posteriormente, tiveram uma convivência dificílima com os hostis invasores  mouros, muçulmanos. Mesmo assim, os judeus produziram expoentes, como o grande  filósofo Maimônides. Na Baixa Idade Média, à medida que os mouros foram sendo  expulsos da Península Ibérica, aumentaram concomitantemente: as perseguições  antissemíticas pela Igreja Romana; os investimentos judaicos nos descobrimentos; a  nova mentalidade expansionista da Era das Navegações, na qual o Brasil foi descoberto.

Rolos e manuscritos massoréticos, iluminados ou não, datados ou não,  proliferaram em toda a Península Ibérica. Todos da mais alta qualidade. 

No século XV, ocorreu a “Era de Ouro” da produção das Escrituras  Sagradas em Portugal. Floresceu a “Escola de Lisboa” de produção de  manuscritos bíblicos. Surgiram a belíssima Bíblia de Lisboa (1482), massorética e de alta qualidade, e outros códices e rolos preciosos. 

Com a invenção da imprensa por Gutenberg, em meados do século XV, e sua posterior difusão na Europa, houve impressão de incunábulos, livros bíblicos hebraicos, nos territórios atuais da Itália e da Espanha e, depois, em Portugal, em Lisboa, Leiria  e Faro. Mas, a expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, foi seguida de opressões em Portugal, a partir de 1496 e 1497. Os impressores judeus deixaram Portugal, com a  tecnologia de ponta e a literatura avançada da época. Judeus espalharam-se por todo  o mundo, atingindo também a Península Itálica, para onde levaram livros bíblicos.

Em Veneza, um erudito sefardita chamado Jacó ben Chaim editou, em 1524 e  1525, uma Bíblia Hebraica impressa que se tornou o padrão reconhecido internacional-

 
O rolo sefardita manuscrito de Ester (c. 1465), na Biblioteca Nacional de Israel, e uma página da Bíblia  Hebraica (1482), massorética e manuscrita, conservada na Universidad Complutense de Madrid.

 

Frontispício do livro de Números, no Pentateuco Português do Duque de Sussex (1475-1499),  conservado na Biblioteca Britânica, em Londres. As duas colunas do Texto Sagrado são separadas por  notas massoréticas, elaboradas por eruditos hebreus, fornecendo informações sobre a pronúncia e a  entoação. A iluminura representou a planta Acanthus mollis, muito usada na ornamentação das clássicas colunas coríntias. Esta iluminura pode ter vindo da mesma oficina que produziu a Bíblia de Lisboa.  Excepcionalmente, esta rara, belíssima e original caligrafia hebraica, arredondada, semicursiva e vocalizada, destacada num detalhe à direita, exibe clara influência árabe ou magrebina, isto é, da África do Norte, onde  também habitavam refugiados sefarditas. O ouro utilizado mostra reverência pela Palavra de DEUS. Como  não há letras maiúsculas no hebraico, as primeiras palavras foram iluminadas.

(Código: Add MS 15283; domínio público. British Library.)

 mente pelos judeus, por mais de quatro séculos. Durante a Reforma Protestante, o Texto Hebraico Massorético foi diretamente usado pelos reformadores, que  traduziram o Velho Testamento diretamente do hebraico para o alemão, o  holandês, o espanhol, o inglês, o francês, o italiano e outras línguas. No século  XVII, o tradutor português João Ferreira Annes d’Almeida (1628-1691),  Pastor protestante reformado, que ministrou nas Índias Orientais Holandesas e trabalhou em terras que hoje pertencem à Malásia, à Índia, ao Ceilão e à  Indonésia, verteu o Velho Testamento para o português, de modo excelente.  Cotejando com traduções e versões em diversas línguas, Almeida, cristão novo de Torre de Tavares, verteu diretamente do Texto Hebraico Massorético  o Velho Testamento, tendo sido seu trabalho continuado pelo Pastor Jacobus op den Akker, holandês. Num método de tradução semelhante, o Novo Testamento  de Almeida baseou-se no Textus Receptus grego que chegara dos Apóstolos por meio  da Igreja Grega, tal como fizeram todos os tradutores da Reforma Protestante.  

Réplica da prensa de Gutenberg e frontispício d’Os Quatro Profetas Maiores, versão de João Ferreira Annes  d’Almeida, impressa em Tranquebar, em 1751. Finalmente, o último livro do autor deste artigo (2021).

A cruel Inquisição Católica espalhou-se da Espanha para Portugal e, nos séculos  XVI, XVII e XVIII, inúmeros judeus e cristãos-novos lusitanos se espalharam por todo  o mundo, chegando sobretudo ao Brasil, a mais importante colônia portuguesa.

Tudo isso nos dá a certeza de que a História do Brasil e a de Portugal, bem assim  a História Geral, muitíssimo omissas e enviesadas, precisam ser reescritas; a educação,  aperfeiçoada. Embora ignorada, recebemos grandíssima contribuição de um povo  altamente perseguido, injustiçado, discriminado e segregado: o povo hebreu.

Acima de tudo, apesar de inúmeras perseguições de reis, militares, chefes  religiosos, filósofos, escritores, terroristas, ateus e outros, a Palavra de DEUS foi  preservada e chegou até os nossos dias. A Palavra de DEUS é viva e dura para sempre!

Mais e mais se descobre, em áreas como história, linguística, arqueologia,  museologia, genealogia e bibliologia. Se o leitor desejar ampliar seus conhecimentos,  sugiro que leia meu livro, intitulado: “A preservação das Escrituras Sagradas: dos  judeus ibéricos às traduções da Era da Reforma”, publicado pela Ágape e pela Novo  Século, em São Paulo. Este livro também está disponível para aquisição no website da  Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil: www.biblias.com.br.

*- Escritor.

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