A Restauração dos B’nei Anussim (Filhos dos Forçados)

Visitar o circuito das cidades judaicas de Portugal é aprender com o passado, meditar e agir no presente e desejar ver cumprido o futuro dos fatos bíblicos. Joseph Shulam, Victor Escronard de Israel, Marcelo Guimarães do Brasil, Abílio Videira e João Azevedo de Portugal integraram a comitiva que esteve visitando as cidades históricas e judaicas de Portugal. A jornada se iniciou em Lisboa, começando por uma oração profética de arrependimento na Praça do Rossio, onde milhares de judeus luso-brasileiros foram ali julgados, condenados e executados pela Corte do Santo Ofício da Inquisição. A história nos mostra que mais de 80 mil judeus já viviam livremente em Portugal quando outros 120 mil judeus espanhóis cruzaram as fronteiras a partir de 1492 em decorrência de sua expulsão daquele país pelo decreto dos Reis Católicos de Espanha, endossado pela Bula do Papa Xisto IV, “Exigit sincerae devotionis Affectus…”.

Cobrando um alto preço de imigração, Portugal recebeu esses judeus da Espanha que cruzavam a fronteira principalmente nas cidades de Marvão e Miranda Douro. Entretanto, o período de liberdade para os judeus durou pouco pois o Rei Dom Manuel casou-se com a filha dos Reis católicos da Espanha em 1496. Uma das exigências para este casamento era que as leis da Inquisição adotadas na Espanha passassem a valer em Portugal. Mas, Dom Manuel não optou por uma nova expulsão dos judeus como ocorrido na Espanha. Portugal já dependia desses milhares de judeus que passaram a representar quase 20% de sua população.

Dentre esses judeus muitos eram médicos, banqueiros, astrônomos, navegadores, além dos ofícios como sapateiros, ourives, marceneiros, construtores, etc. pois, o povo judeu não despertava quase nenhum interesse pela agricultura. Dom Manoel optou então pela conversão forçada desses judeus para o catolicismo. Além do confisco de seus bens, eles deveriam pagar altos impostos para permanecerem em solo português. Aqueles que se recusassem a tal conversão, seriam julgados, condenados e executados nas fogueiras da Inquisição. A maioria dos judeus optou pela conversão ao catolicismo, mesmo que forçada. No judaísmo há o princípio que a preservação da vida e a luta pela sobrevivência são um dos mais dignos mandamentos. Assim, uns se converteram realmente ao catolicismo, os chamados cristãos-novos. Mas, a grande verdade é que muitos após o batismo continuaram a manter sua fé no D’us único de Israel sendo féis aos mandamentos da Torá, mesmo que secretamente. A estes, deram o nome de “Cripto-Judeus”. A terminologia genérica de “Marranos” (que na língua espanhola quer dizer “porco”) é um tanto contundente e refutada por muitos, pois na língua hebraica poderia se dizer “Mar Anuss” ou “Maranus” ou mesmo “Maranos” que significa “Conversos à força”.

A Inquisição Portuguesa que duraria até o ano de 1821, portanto, quase de 3 séculos, atingiu seu ápice nos séculos XVI e XVII, quando milhares de judeus eram delatados por anônimos por suas práticas judaicas, como guardar o acender velas às sextas-feiras, fazer as rezas do shabat, não comer carne de porco ou na maioria das vezes, por não obedecerem os dogmas e doutrinas da Igreja Católica, como a abstinência de carne na sexta-feira santa e na quaresma, participar de procissões, etc.

Com o descobrimento do Brasil em abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral, natural de Belmonte, um “mar vermelho” se abriu, pois milhares dos judeus “conversos” cruzaram os mares dantes não navegados para conquistar terras distantes. Judeus ricos e famosos como Fernando de Noronha, converso e amigo do Rei, começaram a trazer milhares de outros conversos para cultivarem a cana de açúcar para posterior exportação do açúcar para Portugal e Europa. Portugal prosperou muito com a riqueza brasileira. Mas, a alegria de viver em terras distantes da Corte do Santo Ofício Português durou algumas dezenas de anos, pois em 1591, chegava ao Brasil Heitor Furtado de Mendonça, primeiro inquisidor oficial da Corte para apurar a existência de práticas judaizantes. Assim, bastava uma única denúncia, mesmo que anônima, para que o réu ou o suspeito fosse processado.

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